Um texto publicado no portal de esquerda Voyager e assinado por Luan Toja, sob o título "12 Fatos que provam que os liberais brasileiros são, na verdade, conservadores", tentou cagar regra sobre quais pautas o liberalismo brasileiro deve defender ou deixar de defender de forma bastante conveniente para políticos de esquerda. Eu não gosto muito de acusar de má fé, os autores dos textos que tento refutar, mas é difícil não imaginar motivações escusas por trás das falácias que este texto traz.

Considerando apenas os tópicos do artigo, eu tenderia a concordar pelo menos com a metade deles. Realmente, há muito conservadorismo travestido de liberalismo no Brasil, e eu mesmo dedico uma boa parte dos posts da nossa página no Facebook para denunciar estes equívocos (E esse post abaixo, que me rendeu muitas críticas, é uma prova disso). O problema com esse texto porém, é que ele aproveitou esses equívocos comuns no jovem movimento liberal brasileiro para induzir a equívocos ainda maiores. E onde está a má fé na minha opinião? O texto tenta induzir o leitor a acreditar que o liberalismo tem mais a ver com a esquerda do que com a direita e que portanto, liberais devem votar ou apoiar políticos de esquerda. Bastante conveniente, não é mesmo?




Mas vamos refutar o texto, item por item, começando pela introdução. Veja o que o autor pensa do ex-presidente Lula:

"Os adeptos desse proselitismo precisaram aguardar o término do mandato de Lula à frente da presidência do Brasil para tentarem aproveitar a lacuna deixada pela saída de um grande líder popular"

O cara considera Lula, um "grande líder popular" e quer cagar regras sobre o liberalismo. Então me perdoem se algumas colocações minhas ao longo do texto forem demasiado óbvias, mas acredito que para muitos será bastante didático e esclarecedor.

1 – São contra o direito ao aborto




Eu também sou. E não sou brasileiro.

Esse tema divide liberais e não há um consenso sobre o tema no meio, já que os princípios liberais por sí só, não são suficientes para solucionar a questão.
Tudo depende da resposta que você dá para a pergunta: Um embrião deve ser considerado um ser humano, portador de todos os mesmos direitos que qualquer ser humano nascido possui? Se a resposta é não, então realmente, proibir o aborto é uma intromissão indevida no corpo da mulher, mas se a resposta for sim, então o embrião deve ter o seu direito à vida preservado pois o direito à liberdade de um, não pode passar por cima do direito à vida de outro.

E não é só no Brasil que há esse dilema, entre os libertarians americanos (a forma como os liberais são conhecidos nos Estados Unidos), um dos mais proeminentes, populares, influentes e eu diria até, um dos mais radicais, é Ron Paul, e vejam só, mesmo sendo favorável à algumas das pautas que o autor do texto também defende, como a legalização das drogas e o casamento gay, ele é contra a legalização do aborto.
Então, se ser contra o aborto é uma pauta necessariamente conservadora, não são só os liberais brasileiros que estão errando.

2 – Não se posicionam a favor da legalização das drogas



Situação legal da maconha na Europa

Eu realmente acho que a legalização das drogas é uma pauta tipicamente liberal, mas não vejo motivos para tratá-la como prioridade, tampouco devemos deixar de apoiar um político favorável a várias outras liberdades, apenas porque ele não se posiciona sobre a legalização das drogas.

E novamente, esse problema não é exclusivo dos liberais brasileiros. Quantos partidos liberais ao redor do mundo se posicionam claramente a favor da legalização radical de todas as drogas? 
Na Europa, por exemplo, o grupo dos partidos liberais é o quarto maior em número de deputados do Parlamento Europeu, seus partidos são de situação e exercem grande influência, ainda assim, quantos países europeus legalizaram as drogas? Até mesmo os super-progressistas nórdicos possuem políticas bem restritivas em relação às drogas.

A mesma crítica vale até para a esquerda, mesmo entre os politicos de esquerda que se posicionam favoravelmente a liberação da maconha, como Obama e Fernando Henrique, por exemplo, quantos deles de fato liberaram alguma coisa enquanto estiveram no poder? E nem por isso vamos chamá-los de conservadores, certo?
E isso tem uma explicação muito simples: Em geral, tanto os políticos liberais quanto esquerdistas não defendem liberação das drogas abertamente PORQUE ESSA É UMA PAUTA EXTREMAMENTE IMPOPULAR. Não é uma questão de conservadorismo, é uma questão de ganhar votos.

3 – Apoiam o autoritarismo estatal



Os Chicago Boys

De fato, não dá pra entender que tipo de alucinação leva alguém que defende o regime militar de 64 a se considerar liberal. Apesar de serem (acredito eu) poucos os que incorrem em tal incoerência, ela é muito grave para não ser criticada.

Mas mesmo num tópico em que poderia haver alguma concordância, eu me ví extremamente incomodado com um trecho em particular:

"Defesa, que na verdade, não passa de uma sociopatia e um medo exacerbado pela perda de privilégios que as reformas de base de João Goulart e Salvador Allende poderiam acarretar. Reformas estas que inclusive já foram feitas pelos países mais desenvolvidos do globo."

Tudo bem que é incoerente que liberais concordem com o regime de 64 no Brasil ou com o regime de Pinochet no Chile, mas tentar nos convencer de que as políticas de João Goulart e Salvador Allende foram boas, de um ponto de vista liberal, é ofender nossa inteligência.

Essas políticas, que envolviam nacionalização de empresas, descontrole fiscal e controle do estado sobre a economia (que segundo o autor, os liberais deveriam defender), foram, segundo o autor, postas em práticas em vários países desenvolvidos. Pra começar: Quais países são esses? Quando isso aconteceu? Esta afirmação está bem pouco fundamentada. 
E o mais importante: Ser liberal não tem nada a ver com ter complexo de vira-lata. Foda-se se países desenvolvidos fizeram tais "reformas de base", a questão é saber se isso foi causa do desenvolvimento desses países ou se foi apenas um empecilho.

Na verdade eu posso citar um país desenvolvido onde políticas desse tipo foram implementadas, e ainda não de forma tão radical como nos governos de Allende e João Goulart: No Reino Unido do pós-guerra. Quando os trabalhistas chegaram ao poder, perto do fim da II Guerra Mundial, eles implantaram uma espécie de economia mista no país, mas é redundante dizer que deu tudo errado e que sobrou para Margareth Thatcher, que embora conservadora, tinha um programa liberal em economia como nunca se havia praticado antes, arrumar a bagunça toda criada pelos trabalhistas (e conservadores estatistas).

E por fim, embora liberais devam necessariamente, repudiar o aspecto político autoritário do regime de Pinochet no Chile, eles também devem apreciar a política econômica desse mesmo regime, que contou com a assessoria de Milton Friedman e dos Chicago Boys para reverter toda a merda feita pelo governo Allende.


4 – Apoiam projetos de censura como os do “Escola Sem Partido”




Eu particularmente sou contra o projeto Escola Sem Partido, porque acho que é uma solução simplista que não deve funcionar. A doutrinação esquerdista nas escolas existe, mas na maioria das vezes não é por má fé dos professores e sim porque eles simplesmente não conhecem outra coisa que não seja o lixo marxista. O projeto é ruim porque, além de não funcionar, abriria margem para a perseguição arbitrária de professores.

Mas obviamente que o projeto em sí, não se trata censura, até concordo que ele abre margem para a censura, mas dizer que professores devem se limitar a ensinar o conteúdo das disciplinas da forma mais imparcial possível, não é defender a censura. O professor tem o direito de expressar suas opiniões, mas fora do horário de aula, afinal ele é pago pelos pais dos estudantes (seja em forma de mensalidades para escolas particulares ou de impostos para escolas públicas) para ensinarem os conteúdos que os pais e a sociedade consideram relevantes e não para fazer proselitismo de suas próprias convicções pessoais. Professores prestam um serviço aos pais e à sociedade, não a sí mesmos, por isso devem se submeter, enquanto professores (óbvio que fora das escolas eles podem dizer o que quiserem) àquilo que os pais e a sociedade esperam que eles ensinem.

Se não devemos aceitar que um professor tenha o direito de chegar na sala de aula e começar a ensinar os alunos a jogar truco, por exemplo, sob a alegação de que está exercendo sua "liberdade de expressão", tampouco devemos aceitar que eles usem a sala de aula como palanque. Até porque, os mesmos críticos do projeto Escola Sem Partido, não aceitam que professores ensinem religião ou que rezem o Pai Nosso antes das aulas por exemplo, ora, mas isso não seria censura também?

5 – Apoiam Trump / 6 – Apoiaram Crivella




Freixo fazendo cosplay de "libertário".

Vou falar dos dois tópicos ao mesmo tempo porque no fundo tratam da mesma coisa.
Se algum liberal vê em Trump ou Crivella, a salvação da América ou do Rio, respectivamente, esse sujeito é evidentemente retardado, mas se ele considera que esses candidatos eram a opção menos ruim entre duas opções ruins, essa já é uma posição bem mais respeitável, embora não necessariamente acertada.
Então não é que Trump e Crivella sejam bons, Hillary e Freixo é que eram muito ruins. E eu particularmente, ficaria de lados diferentes nas duas situações, entre Crivella e Freixo, prefiro Crivella, mas entre Trump e Hillary, prefiro Hillary. Acontece é que a diferença de um sobre o outro é tão sutil que eu realmente não acho que um liberal que preferisse Trump fosse menos liberal por causa disso.

E novamente, são alguns trechos específicos que me levam a crer que o autor maliciosamente tenta induzir o leitor a apoiar políticos de esquerda:

"No segundo turno das últimas eleições municipais do Rio de Janeiro, a disputa ficou entre Marcelo Freixo, candidato que defende pautas libertárias como as legalizações do aborto e das drogas, e Marcelo Crivella, bispo de uma igreja ultrafundamentalista"

Então Marcelo Freixo tem pautas libertárias? Quantas exatamente? Você só citou uma: A legalização das drogas. Ter uma, ou duas, que seja, pautas libertárias, não faz de você um libertário e em segundo lugar, esssa pauta é irrelevante para um pleito municipal, simplesmente porque não tem como legalizar as drogas em um único muncicípio, logo, o tema é totalmente irrelevante nessa situação.

E se ser de uma religião ultrafundamentalista é motivo o suficiente para não votar num candidato a prefeito, então os londrinos erraram ainda mais feio ao eleger um prefeito muçulmano, não é mesmo? Ou será que o autor é um daqueles que acham que dizer que o islã é intrinsecamente fundamentalista, é islamofobia, mas dizer que a Igreja Universal o é, está tudo bem? - Tranquilo, você pode até receber uns tapinhas nas costas dos seus amigos do DCE da sua faculdade por isso.
Tamanha falta de senso das proporções não pode ser fruto apenas de uma falha de raciocínio, o autor desse texto realmente está tentando cooptar liberais para sua agenda de esquerda.

7 – Defendem e apoiam a família Bolsonaro

Novamente, o autor pega uma verdade, nesse caso, ser liberal e apoiar a família Bolsonaro é uma tremenda incoerência, para manipular o leitor, numa típica falácia non-sequitur.

Ele dá a entender que o MBL apoia Bolsonaro incondicionalmente por conta de UM ÚNICO CASO ESPECÍFICO em que o movimento se manifestou em defesa do deputado, nesse caso, em relação à acusação que Bolsonaro sofreu no STF por suposta apologia ao estúpro durante uma discussão com a colega Maria do Rosário.

E veja bem, eu particularmente acho que Bolsonaro estava errado nesse episódio, mas não é a simples posição em favor do deputado NESSE CASO ESPECÍFICO que torna o MBL menos liberal.

8 – São contra o movimento feminista





O feminismo liberal tem o dever de proteger a liberdade
dos ataques vindos do feminismo pós-moderno

O autor está correto ao afirmar que o feminismo é uma pauta tipicamente liberal e que o feminismo liberal é uma vertente importante do movimento feminista, mas também é fato que feministas liberais têm não só o direito, mas o dever de criticar o chamado "feminismo de terceira onda" por seu caráter fortemente anti-liberal. O autêntico feminismo liberal, aquele realmente preocupado com as liberdades individuais, tem o dever de dedicar tantas energias para criticar o feminismo pós-moderno, com seu irracionalismo e autoritarismo intrinsecos, quanto para lutar contra o machismo. E é justamente isso que uma conhecida feminista liberal, a autora americana Christina Hoff Sommers, por exemplo, faz em seu excelente canal no youtube.

9 – São anti-igualitários



O autor colocou bem ao lembrar de autores liberais como Hayek e Friedman, que defenderam programas governamentais para o alívio da extrema pobreza, mas isso é muito diferente de defender igualdade. Confundir desigualdade com pobreza é um erro típico de socialistas, não tem como alguém cometer esse erro e ainda se prestar a cagar regra sobre liberalismo. Definitivamente, o autor desse texto ofende nossa inteligência.
Aliás foi o mesmíssimo Hayek, o autor da frase: "Existe uma enorme diferença entre tratar as pessoas igualmente e tentar torná-las iguais."

Portanto, a única igualdade que liberais defendem é a igualdade de tratamento. OK, eu sei que igualdade de condições sociais, também foi um tema caro para John Rawls, outro importante pensador liberal que o autor cita, mas a teoria da justiça de Rawls está longe de ser consenso entre os liberais, ela foi durante criticada por Robert Nozick e, novemente, por Hayek.
E mesmo John Rawls defendia que a desigualdade poderia ser justificada quando, de alguma forma, contribuísse para o bem comum.

E é justamente por defender a igualdade de tratamento que o liberalismo rejeita cotas raciais e políticas afirmativas. Milton Friedman, citado pelo autor, defendia programas de governo contra a pobreza, mas argumentava que estes programas deveriam se focar nos pobres, não nos negros, não nas mulheres, não nos camponeses, mas apenas nos pobres e qualquer outro critério para as políticas assistenciais do governo seria um erro com consequências negativas para os mesmos grupos que se tenta ajudar.
A ideia de igualdade de tratamento foi tão marcante em Friedman, que dois de seus mais proeminentes alunos, os economistas afro-americanos Thomas Sowell e Walter Williams, fizeram carreira criticando as politicas afirmativas.

10 – Defendem os “corporativistas”





Você sabia que: As chuvas intensas em São Paulo são
feitas das lágrimas dos petistas que não aceitam que
o Doria é mil vezes melhor do que o Haddad?

No começo deste tópico, o autor acusa os liberais brasileiro de tentarem deslegitimar a política de campeãs nacionais do governo Dilma, ao mesmo tempo em que citam a Coréia do Sul, um país que praticou tais políticas, como caso de sucesso.

Acontece é que, em primeiro lugar, liberais citam a Coréia do Sul, na maioria das vezes, apenas em comparação com a Coréia do Norte. Alegam que o contraste entre a Coréia do Sul corporativista, mas ainda assim, uma economia de mercado a grosso modo, e a Coréia do Norte plenamente comunista, é nítido, o que não significa que a Coréia do Sul seja um modelo ideal.

Em segundo lugar, é evidente que a Coréia do Sul deu certo, pois país saiu da pobreza abjeta direto para o primeiro mundo em apenas algumas décadas, e o Brasil de Dilma deu errado e a crise que estamos vivendo é a prova mais inegável disso.
Mas se ambos praticaram a política de campeãs nacionais, o que explica tamanha disparidade de resultados? São vários fatores: O estado na Coréia do Sul investiu em educação, o governo Dilma investiu em estádios de futebol; a Coréia do Sul investiu em infra-estrutura, em bens de capital e no lado da oferta, o Brasil incentivou o consumo e o lado da demanda; a Coréia do Sul tem poucas políticas trabalhistas, tanto que cresceu oferecendo mão de obra barata, o Brasil trata a CLT como sagrada e inquestionável; a Coréia do Sul tem um ambiente favorável para os negócios e uma carga tributária civilizada, o Brasil tem uma carga tributária sufocante e é um pesadelo para os empreendedores. Definitivamente, as diferenças são enormes.

Em seguida ele acusa Doria de ser um empresário corporativista, o que pode não estar totalmente errado, ao mesmo tempo em que alega que corporativismo existe em todo mundo e é algo quase que inevitável, mas os liberais brasileiros só criticam os corporativistas que apóiam ou estão envolvidos com o PT, fazendo vista grossa para os que estão envolvidos com os demais partidos.
Mas isso é óbvio não? Sendo o PT pior que suas alternativas (PSDB por exemplo) e estando todos eles no mesmo barco quando se trata de corporativismo, então melhor um corporativista que não apoia o projeto bolivariano do PT, que culminaria, a longo prazo, no socialismo, do que um que o faz.

E sim, o fato de o sujeito ser financeiramente independete e financiar a própria campanha, como foi o caso de Dória, o torna menos vulnerável a se tornar refém de outros empresários corporativistas, e essa é uma tese que o autor do texto nem tentou refutar.

11 – Pensam que a religião é um dos fundamentos do liberalismo




Tocqueville, Lord Acton, José Ortega y Gasset? Nunca ouvi falar!

É verdade que o liberalismo defende o estado laico, e o autor está correto ao citar novamente John Rawls (que volto a afirmar, não é consenso entre liberais) para fundamentar a tese de que as instituições políticas não devem ser lastreadas por uma noção de bem derivada da religião, embora também não precise necessariamente estar em contradição com essas noções, diga-se de passagem.

Mas daí a pular para a afirmação que o autor faz a seguir, é um salto lógico inaceitável.

"Isso sem falar que o liberalismo é a crença de que o ser humano tem riquezas intrínsecas, únicas a cada indivíduo, que – se retirarmos os entraves externos (o que inclui a Igreja) – se desenvolvem ao máximo. Então não pode haver repressão por parte da Igreja, nem mesmo indução."

Nem todos os liberais acreditam que a Igreja ou a reprovação moral de um grupo ou instituição, seja necessariamente um entrave para a expressão da individualidade, Tocqueville é um desses liberais que, pelo contrário, acreditavam que a liberdade só funciona em sociedades extremamente moralistas, justamente porque esses códigos morais substituem a coerção do estado na moderação do comportamento humano.
E mesmo os liberais libertários, aqueles que reprovavam a tirania da opinião alheia tanto quanto a tirania da coerção estatal, como era o caso de John Stuart Mill, não achavam que a segunda era a solução para a primeira. As pessoas, segundo estes, devem se libertar do dogmatismo e do moralismo (religioso ou não), mas não cabe ao estado libertar as pessoas da "tirania não estatal", tal tentativa geraria uma tirania ainda pior. Usar o estado para livrar as pessoas da tirania religiosa, geraria uma tirania atéia. A decisão de ser livre (para os que concordam com essa concepção de liberdade que, repito, está longe de ser consenso entre os liberais) deveria, como sempre, partir da razão do próprio indivíduo.

Eu poderia citar vários outros autores liberais que certamente discordariam do autor do texto, Lord Acton provavelmente é um nome desconhecido pra ele, Escola de Salamanca então, nem se fala. Posso citar também o espanhol José Ortega y Gasset que argumentou de forma esclarecedora que defender um estado laico é muito diferente de defender o anti-clericalismo.

12 – São contra os direitos LGBT

Veja o que o texto diz:

"Já Fernando Holiday, um dos líderes do MBL, vereador eleito em São Paulo, se posicionou a favor da extinção das secretarias da prefeitura de São Paulo voltadas para a promoção da igualdade racial e também a que atende a população LGBT."

Quer dizer, se você é liberal você deve tratar como inquestionável o gasto estatal com uma secretaria inútil apenar porque ela diz promover a igualdade. Sacaram qual é? Liberais devem acreditar no estado como mediador de todos os conflitos humanos.

Definitivamente, o autor desse texto subestima nossa inteligência ao achar que seria tão fácil cooptar liberais para sua agenda de esquerda.

Algumas críticas ao capitalismo são bem construídas, bem fundamentadas e merecem uma análise séria, outras porém são simplistas, baseadas no senso comum e papagaiadas exaustivamente, explorando os limites da nossa paciência. Esse post é a reação de alguém que definitivamente, perdeu a paciência. Por serem tão simplistas e rasas, acho que tais alegações não merecem mais do que respostas curtas e objetivas.



"Trabalhamos em empregos que odiamos 
para comprar porcarias de que não precisamos."
- Frase clichê do filme Clube da Luta que eu colocava no nickname
do MSN quando eu tinha 16 anos.


1. O capitalismo nos força a passar a maior parte do nosso dia trabalhando. 
R: Qualquer que seja o sistema econômico, você terá que trabalhar porque os bens necessários para a sua sobrevivência e a da sociedade, não caem do céu.

2. O capitalismo nos força a consumir coisas das quais não precisamos. 
R: Ninguém é obrigado a consumir nada. 

2.1. Mas a publicidade tenta nos convencer de que nós precisamos de... 
R: Tenta nos convencer, mas não nos obriga a nada. 

3. O capitalismo é bom para produzir bens de consumo, mas saúde e educação são mais importantes. 
R: Saúde e educação demandam bens de consumo. Educação demanda carteiras, material escolar, prédios, etc; saúde por sua vez, demanda remédios, inúmeros materiais e até tecnologia de ponta. Uma sociedade que não for capaz de produzir nem papel higiênico, não tem nem como manter a higiene, quanto menos produzir coisas como ressonância magnética, por exemplo.

4. O capitalismo está destruindo o planeta. 
R: Não há a menor evidência de que as alternativas ao capitalismo se sairiam melhor nesse quesito. Pelo contrário, há inúmeros casos de desastres ambientais provocados pelo comunismo [1] [2] [3] [4] e até por sociedades mais "primitivas", como foi o caso de algumas civilizações pré-colombianas [1] [2], que desapareceram porque suas técnicas agrícolas inadequadas alteraram o equilíbrio ambiental da região em que viviam.
Também na Europa, muito antes da Revolução Industrial, na verdade, desde a pré-história, o desmatamento, por exemplo, já era muito intenso.


Norilsk, uma das cidades mais poluídas do mundo,
construída originalmente como um campo de concentração
pelo regime soviético.

5. No capitalismo, as empresas só se importam com o lucro.
R: O lucro numa economia de mercado, é um sinal de que a empresa está atendendo a uma demanda da sociedade. Para ter lucro, as empresas precisam vender aquilo que as pessoas querem e é só pra isso que as empresas servem: Produzir coisas que as pessoas querem.

6. Por causa do capitalismo, a desigualdade no mundo está aumentando.
R: Supondo que esta afirmação esteja certa, por outro lado há dados muito mais consistentes que mostram que a pobreza absoluta vem caindo.  Desigualdade é diferente de pobreza, a pobreza é um mal muito mais real e tangível, por isso deve ser combatido com mais urgência e o capitalismo tem se saído relativamente bem na redução da pobreza.



Proporção da população que vive na extrema pobreza desde 1990.


7. Nosso ar está poluído, nossa comida está envenenada, agrotóxicos e transgênicos estão nos matando.
R: Mas misteriosamente, a expectativa de vida em todo mundo só tem aumentado.



8. As mercadorias que consumimos são produzidas por chineses que enfrentam longas jornadas de trabalho e recebem salários baixíssimos.
R: Os chineses que trabalham na manufatura de exportação ganham muito mais do que os trabalhadores que vivem da agricultura de subsistência no interior do país. A renda média dos chineses vem crescendo muito rápido e inclusive, segundo projeções, deveria ultrapassar a renda brasileira ainda em 2016. Antes da China, a Coréia do Sul se desenvolveu seguindo o mesmo caminho: Começaram vendendo mão de obra barata para a indústria de exportação e hoje estão entre os países mais desenvolvidos do mundo.

9. A tecnologia vai causar desemprego generalizado no futuro. 
R: Há 200 anos atrás, quando as primeiras máquinas estavam surgindo na indústria, os ludistas já diziam que isso iria acontecer e até agora, não aconteceu.

Ludistas em 1812, destruindo máquinas que, 
segundo eles, iriam causar desemprego em massa.


10. A miséria não acaba porque dá lucro. 
R: Para ter lucro, os capitalistas precisam vender. Para que eles vendam, as pessoas precisam ter dinheiro para comprar. Se as pessoas são miseráveis, elas não tem dinheiro pra consumir, logo, os capitalistas não têm lucro.


11. Para que os ricos fiquem mais ricos, os pobres precisam ficar mais pobres. 
R: A economia não é um jogo de soma zero, pois o montante de riquezas disponíveis pode simplesmente aumentar. Quando você ouve falar que o PIB de um país cresceu, por exemplo, é exatamente isso que está acontecendo. 
No Brasil, ao mesmo tempo em que a pobreza estava sendo reduzida pela metade, a quantidade de bilionários estava sendo multiplicada por 10.


R: Metade da população mundial (que é de 7 bilhões de pessoas) dá 3,5 bilhões. Se dividirmos essa riqueza (US$ 1,7 tri) por 3,5 bi de pessoas, cada pessoa ficará com míseros US$ 485,71, ou ainda, pouco mais que US$ 40 por mês durante apenas 1 ano.
E depois que esse dinheiro acabasse, de onde iríamos tirar mais dinheiro pra fazer distribuição de riqueza no ano seguinte? E no outro? E no outro?
Distribuir riqueza não é a solução, a solução é criar riqueza para os mais pobres.



Acho que a PEC do teto dos gastos será aprovada tranquilamente, minha preocupação é com a reforma da previdência, acredito que ela será muito impopular, tão impopular que pode sobrar até pra nós. Explico:

A mudança para uma idade mínima de 65 anos para se aposentar é muito radical em comparação com a situação atual. Imagine um garoto que recebeu uma mesada de R$ 500 durante toda a vida e, ao chegar aos 17 anos, o pai diz que a mesada cairá pra R$ 50. Por mais que o pai tenha lá suas razões, é evidente que o filho ficará extremamente revoltado. Bom, acho que a revolta da imensa maioria do povo brasileiro, tão mal acostumado com décadas de populismo, será incomparavelmente maior, sem exagero. Acho que o governo Temer está colocando a mão dentro de um vespeiro de tamanho sem precedentes, a revolta será grande, a popularidade de Temer cairá a zero e vai sobrar pra nós.

Em primeiro lugar, a impopularidade do governo será canalizada contra todos os que apoiaram o impeachment - "Tiraram a Dilma para colocar o Temer e agora, vejam o que ele fez!". - Em segundo lugar, vão culpar a ideologia por trás da reforma, pra ser mais exato, acredito que vão culpar o liberalismo e a chamada "austeridade". Vai sobrar para o PSDB também, afinal são parte da base de apoio ao governo Temer, com consequências nas eleições de 2018 e por fim, ao fazerem resistência à reforma, também o PT terá a sua grande chance de recuperar parte da popularidade perdida, colocando-se mais uma vez como defensores dos "direitos dos trabalhadores". Eu diria até que, pela habilidade e experiência política que o PT tem, eles já devem estar trabalhando nisso desde agora.

A saída para os liberais, na minha opinião - o que infelizmente não vai contar muito porque sei que poucos vão me ouvir - é simplesmente olharmos para os nossos ideais e nos mantermos fiéis a eles, sem fazer concessões para soluções pela metade e isso significa que também devemos nos colocar contra a reforma, principalmente se ela for tão radical quanto está sendo proposto agora. Antes de tudo, porque a reforma já não é a solução ideal do ponto de vista liberal, a solução ideal para nós é a privatização da previdência e acreditem, essa seria uma solução menos impopular do que a reforma proposta pelo governo. Uma solução que por sinal, não deveria ser vista como tão utópica assim, visto que já foi praticada em outros países, como no Chile por exemplo. O discurso de que a previdência social não funciona tem, além de tudo, os fatos a seu favor, pois o Brasil não é o único país onde a previdência passa por problemas. A previdência estatal está em processo de falência completa em todo o mundo, principalmente nos países desenvolvidos onde a população está envelhecendo.

Por mais que a reforma do governo Temer seja uma opção melhor do que simplesmente deixar tudo como está, não valerá a pena, nesse caso, apoiar o mal menor, como normalmente é o melhor a ser feito, se esse mal menor, do ponto de vista econômico, é o mal maior do ponto de vista político.
Ao invés de um discurso de apoio à reforma, deveríamos adotar, na minha humilde opinião, a posição de que a reforma termina por provar que o estado é ineficiente também para gerenciar a previdência, já que se exige cada vez mais de nós, enquanto se entrega cada vez menos, em primeiro lugar porque essa é a mais pura verdade e em segundo lugar, porque essa posição poderia nos proteger da ira popular que certamente virá.

Mas o mais grave é que os tais "movimentos de rua liberais", a essa altura já totalmente subservientes ao governo Temer, com certeza vão apoiar a reforma e trabalhar incansavelmente (e em vão) para tentar mudar a opinião do povo, o que só servirá para fazer com que a opinião do povo se volte contra eles próprios e por tabela, contra nós todos também.
Mas para aqueles que, assim como eu, não têm rabo preso com políticos e partidos a dica que eu tenho pra dar essa: Não apoiem a reforma da previdência do governo Temer, apresentem como solução ideal, a privatização completa da previdência e usem a própria reforma como prova de que a previdência estatal não funciona. Precisamos pelo menos tentar mostrar que há independência e diversidade de pensamento entre os liberais e que nosso compromisso é em primeiro lugar, com ideais e valores, não com políticos e partidos que nem sequer representam nossas ideias.
Quando defendemos a economia de mercado e o capitalismo dizendo que com isso, estamos defendendo a liberdade, muita gente pode não entender muito bem o que uma coisa tem a ver com a outra. A esquerda vem logo questionar: Que liberdade é essa? A liberdade para explorar o trabalhador, o meio ambiente e os consumidores? Existem mesmo as tais liberdades econômicas no capitalismo ou isso é pura propaganda ideológica?

O que o capitalismo tenta nos oferecer são basicamente, duas liberdades:
1. Liberdade de escolher o que você quer consumir
2. Liberdade de escolher como você vai trabalhar

1. LIBERDADE DE CONSUMO


"É dia de feira, quarta-feira, sexta feira não importa a feira (...)"

Vamos começar pela liberdade de consumir. 
Consumir é uma palavra muito mal vista atualmente por conta dos problemas ambientais que parecem resultar do consumismo, mas ainda que abandonemos o consumismo, jamais poderemos abandonar o consumo. O ser humano precisa consumir pra viver, mesmo que seja apenas comida, água e oxigênio, mas como diria a música dos Titãs: "A gente não quer só comida". É natural do ser humano desejar muitas outras coisas.
Diversão, arte, cultura e conhecimento parecem boas pedidas, mas nossa demanda por essas coisas demanda outras coisas. Por exemplo,  para pintar um quadro, precisamos de tinta, tela, pincel, etc. Esses materiais demandam recursos naturais. Um telescópio para observar as estrelas apenas para ficarmos estarrecidos com as profundezas do universo, demandam inúmeros instrumentos, materiais e tecnologias que por sua vez também demandam várias cadeias produtivas e inúmeros recursos naturais.
Resumindo, não tem como fugir do consumo, mesmo que estejamos em busca apenas das atividades que mais enobrecem a alma, como contemplar a arte e o universo.

Mas voltemos então à liberdade de consumir: Escolher o que você vai comer no almoço, se uma lasanha ou uma salada, parece importante pra você? Escolher as roupas que vou usar, que livros vou ler, ou se ao invés de comprar um livro, prefiro ir ao cinema, pelo menos pra mim, parecem liberdades fundamentais. Eu simplesmente não seria feliz tendo que viver uma vida que outra pessoa escolheu pra mim e acredito sinceramente que a maioria das pessoas, pra não dizer todas, também não seria.
Muita gente na esquerda também defende liberdade de consumo. Os que defendem a liberação da maconha por exemplo, simplesmente estão dizendo: Queremos liberdade para consumir maconha. Mas não quero entrar aqui no mérito da discussão da liberação das drogas, nem se a liberdade de consumo deve ser absoluta ou não, mas a questão que fica é: Onde está a coerência da esquerda que defende o livre consumo de maconha? Se devo ter liberdade de consumir maconha, por que não posso ter liberdade também de consumir um Big Mac? Sendo os malefícios da maconha, um assunto ainda envolto em certa controvérsia, a liberação do seu consumo exige, por uma questão de coerência, uma defesa muito mais radical da liberdade de consumo do que vários outros produtos exigiriam. O que quero dizer é que estes que defendem a liberação do consumo da maconha, deveriam ser os mais radicais defensores da liberdade de consumo, mas como coerência não é o forte em muita gente na esquerda, não é isso que acontece.


"(...) tô vendendo ervas que curam e acalmam"

Mas a liberdade de consumir no capitalismo tem uma limitação: Você pode consumir o que quiser, desde que tenha dinheiro para pagar. Onde está a liberdade então? - Alguns se perguntariam. - Liberdade no capitalismo é só para quem tem dinheiro?
Bom, vamos pular a parte sobre como o dinheiro é distribuído no capitalismo. Muita gente acha que é justamente aí que se encontra a injustiça desse sistema e não nego que essa seja uma discussão pertinente, mas não é o nosso foco aqui, posso discutir esse assunto em outro artigo futuramente, mas neste artigo, estamos falando de liberdade no capitalismo e não justiça social no capitalismo. Os dois aspectos estão intimamente ligados, mas infelizmente, teremos que nos focar em apenas um deles ou o texto ficará muito longo.
Vamos nos focar então nessa limitação à liberdade de consumo no capitalismo: O dinheiro. 

Bom, primeiramente, precisamos ter em mente que as limitações ao consumo são imperativos impostos pela própria natureza e não depende do sistema econômico vigente. Não vivemos num mundo de abundância infinita, não podemos ter tudo o que queremos, as riquezas são finitas, por isso, a escassez é a primeira lei da economia, tanto é que alguns economistas preferem chamar a economia de "a ciência da escassez".
Tenha isso sempre em mente: Independente do sistema econômico, não importa se estamos no capitalismo, no socialismo ou em qualquer outro sistema que alguma mente criativa e pretensiosa ainda vá inventar, AS RIQUEZAS SÃO FINITAS E NÃO PODEMOS TER TUDO O QUE QUEREMOS, de uma forma ou de outra, as riquezas são limitadas e portanto, nossa liberdade de consumir também.
É uma limitação imposta pela própria natureza que infelizmente resolveu não ser infinita. Da mesma forma que a natureza não nos deu a liberdade de escolhermos, por exemplo, quantos anos de vida teremos neste mundo, ela também nos negou uma liberdade de consumo absoluta. Faz parte daquilo que muitos filósofos chamaram de "condição humana".

Então, qualquer sistema econômico, e o capitalismo não foge à regra, precisa de um sistema para RACIONAR o consumo. Precisamos de um sistema que nos diga quem tem direito a consumir o quê. O sistema adotado pelo capitalismo é o sistema de preços, do qual voltaremos a falar, mas basicamente, a ideia é essa: Tudo tem um preço - Se você pode pagar por um bem, ótimo, você adquire direito de consumi-lo, caso contrário, você não tem esse direito. É assim que o consumo de bens é racionado no capitalismo. Se este sistema é justo, é uma discussão a parte, mas que ele é eficiente, é o que vamos provar mais adiante.

Concluo então dizendo que, embora o capitalismo nos garanta liberdade de consumo, ele não faz milagre e não faz com que as riquezas caiam do céu feito maná abundantemente, por isso ele, como qualquer outro sistema econômico, precisa de um mecanismo para racionar o consumo. Podemos então agora, discutir a segunda liberdade que o capitalismo procura oferecer: A liberdade de trabalho.

2. LIBERDADE DE TRABALHO




"Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado" - Genesis 3: 19

Passamos uma grande parte da nossa vida trabalhando, então a liberdade de escolher como passar todo esse tempo é sem dúvida, muitíssimo importante. Muitas pessoas só encontram realização pessoal no trabalho, para os que gostam do que fazem e têm prazer nisso, o trabalho passa a ser quase que um fim em si mesmo e não apenas um meio para se conseguir dinheiro, por isso, a liberdade de escolher com o quê e como trabalhar é tão importante para a felicidade e para a realização plena do ser humano.

A primeira objeção que surge e que tem sido muito comum ultimamente é a de que, no capitalismo, somos obrigados a trabalhar. Somos obrigados a ficar longas horas presos num escritório, executando uma tarefa enfadonha, isso quando não temos que executar trabalhos braçais e extenuantes. Por que temos que trabalhar afinal de contas? Onde é que está a liberdade?
Bom, essa é outra imposição que não vem do capitalismo e sim da condição humana, mais uma vez: Vamos nos lembrar que as riquezas não caem do céu, que não são infinitas e que não se criam magicamente, por isso, PRECISAMOS TRABALHAR PARA PRODUZIR RIQUEZAS. No pain, no gain.
Você pode até não ser cristão, mas deve admitir que a Bíblia é rica em alegorias, uma que descreve perfeitamente essa verdade sobre a condição humana é aquela que se encontra no livro do Genesis: Perdemos o paraíso, por isso, temos que ganhar o pão de cada dia com o suor do nosso rosto. Novamente: Isso indedepende do sistema econômico. No socialismo, você também teria que trabalhar, se tivesse o azar de ser mandado para um Gulag, talvez teria que trabalhar até mais do que suas forças suportariam.
Em última instância porém, você não é absolutamente obrigado a trabalhar. Você pode escolher não trabalhar se quiser, ou trabalhar pouco, desde que assuma as consequências dessa escolha.

Alguns vão argumentar que essa liberdade também encontra outra limitação no capitalismo: Suponhamos que meu sonho seja me tornar um médico, mas que eu não tenha dinheiro para pagar uma faculdade, ou que ninguém queira se consultar ou se tratar comigo porque não tenho formação, ou porque julgam que não tenho competência ou suponha ainda que nenhum hospital ou clínica queira me contratar. Nessas condições, eu simplesmente não posso realizar minha vontade de ser médico.
É verdade, mas nossa liberdade termina onde começa a do outro. Ainda que o diploma de medicina não fosse obrigatório para se exercer a medicina, as pessoas podem simplesmente escolher não procurar os meus serviços e elas o farão exercendo a liberdade de escolha delas. Não podemos obrigar as pessoas a consumirem o nosso trabalho, pois dessa forma, estaríamos violando a outra liberdade da qual falamos anteriormente: A liberdade dessas pessoas de escolherem que serviços ou produtos querem consumir.
Mas o bom do capitalismo é o seguinte: Você sempre tem liberdade para tentar. Ainda que não exista demanda para o seu produto ou serviço, você ainda é livre para tentar. Suponhamos que seu sonho seja se tornar jornalista, mas que o mercado esteja extremamente saturado de jornalistas e que muitos recém-formados não encontram emprego na área. Ainda assim, você é livre para tentar, para se esforçar e tentar se destacar dos demais. Pode ser que você consiga conquistar um espaço, que você consiga tomar a vaga de alguém que já estava no mercado antes de você mas, caso venha a falhar, você deve sempre arcar com as consequências de suas escolhas.

Outra objeção que sempre foi muito comum é: Por que, no capitalismo, um músico como por exemplo, Wesley Safadão, ganha tanto dinheiro, enquanto um baterista de jazz, que estudou durante anos e que adquiriu um virtuosismo técnico impecável, mal consegue viver da sua arte? Isso não parece injusto?
Bom, é aí que entra a liberdade. Esse questionamento esconde um viés autoritário por trás dele. Isso mesmo: Há muita tirania e autoritarismo por trás desse argumento e é isso que vou demonstrar.
Por que Wesley Safadão ganha tanto dinheiro? Simples: Porque as pessoas escolheram livremente consumir a musica de Wesley Safadão. Por que o baterista de Jazz não consegue viver da sua música? Porque as pessoas não ligam para a música dele. Simples assim. Se você faz o que as pessoas querem, você ganha dinheiro, se você não atende à vontade das pessoas, você não ganha.
Não estou dizendo que um tipo de música é melhor do que outro. Não estou fazendo nenhum juízo de valor, isso cabe a cada indivíduo. Infelizmente, o capitalismo não tem a solução para o mal gosto, o capitalismo apenas respeita o gosto, as preferências e a LIBERDADE de escolha das pessoas, concorde você com eles ou não.


Se 99% ouve Wesley Safadão, mas aquele 1% prefere outro tipo de música, que a liberdade de todos seja respeitada.

Não haveria como fazer com que o baterista de jazz ganhe dinheiro (nesse caso hipotético do qual estamos falando, pois eventualmente, alguns bateristas de jazz ganham algum dinheiro também), sem forçar as pessoas a consumirem algo que elas não querem, ou a pagar por algo que elas não estão consumindo. Ou seja, não haveria como resolver essa situação sem apelar para a tirania e o autoritarismo.

Acreditem, eu já fui de esquerda, e a fonte da minha revolta contra o capitalismo era justamente essa, eu queria que as pessoas gostassem das mesmas músicas que eu gostava, a saber: Power Metal Sinfônico. Pra mim, aquilo sim era música de verdade. Mas as pessoas insistiam em ouvir Zezé Di Camargo e Luciano, aquilo que, na minha opinião, era puro lixo feito para ganhar dinheiro.
Por mais juvenil que pareça, essa ainda é a fonte da revolta contra o capitalismo de muito adolescente inconformado de esquerda. E mais incrível ainda: Essa é a fonte da revolta contra o capitalismo por parte de muitos intelectuais, basta ver por exemplo, a crítica de Theodor Adorno contra a "Indústria Cultural". Acontece é que Adorno, como todo bom marxista, é também um bom autoritário.


Vemos então que nossa liberdade de ofertar produtos e serviços, está limitada pela liberdade dos outros de consumirem ou não estes produtos e serviços. Mas acho que já estou adiantando demais o próximo tópico...


3. COMO ESSAS LIBERDADES SE HARMONIZAM: O SISTEMA DE OFERTA E DEMANDA


Modelo matemático da Lei de Oferta e Demanda. Olhando assim parece complicado, mas eu entendi isso quando ainda era criança e a humanidade já conhece essa lei desde a Idade Média.

Como vimos, nossa liberdade é limitada pela liberdade dos outros e por isso, precisamos de um sistema que ordene a vontade de todos. No capitalismo, ou seja, numa economia de mercado, esse sistema tem um nome: É o sistema de oferta e demanda que se expressa através dos preços.
E como funciona esse sistema?
A lei de oferta e demanda diz que nos períodos em que a oferta de um determinado produto excede muito à procura, seu preço tende a cair. Já em períodos nos quais a demanda passa a superar a oferta, a tendência é o aumento do preço.

Quanto mais alto for o preço de um produto, menos pessoas estarão dispostas ou poderão comprá-lo. Quando o preço de um bem sobe, o poder de compra geral diminui e os consumidores mudam para bens mais baratos.

Quanto maior for o preço pelo qual uma mercadoria pode ser vendida, mais produtores estarão dispostos a fornecê-la. O preço alto incentiva a produção. Em oposição, para um preço abaixo do equilíbrio, há uma falta de bens ofertados em comparação com a quantidade demandada pelo mercado. Isso faz com que o preço suba.

Esse sistema tem um efeito duplo: Estimula os produtores a produzirem aquilo que os consumidores desejam e ajuda a racionar o consumo dos bens de acordo com o seu grau de escassez.

                                                              

"Talvez por conviver com isso desde criança, o sistema de oferta e demanda e a forma como os preços se formam, pra mim, sempre foi a coisa mais óbvia do mundo. Quando se fala em livre mercado, muita gente lembra do mercado de ações e daqueles caras engravatados berrando feito loucos numa Bolsa de Valores, já eu, quando ouço falar em livre mercado, me lembro da barraca de feira do meu pai e dos feirantes berrando feito loucos: 'Chega pra cá freguesia'. "
                                                              


Simples de entender não? Certifique-se de que tenha entendido essa parte pois é aqui que acontece toda a mágica do livre mercado. Bom, eu nunca tive dificuldades em entender, porque convivi com isso desde a mais tenra idade. Meu pai era feirante. Me lembro que os preços das mercadorias eram escritos com giz em plaquinhas de madeira para que pudessem ser alterados com facilidade.

Me lembro de que certa vez, quando tinha uns 5 ou 6 anos, meu pai me pediu que eu colocasse uma plaquinha de preço na laranja: R$ 1,00 a dúzia. (Sim, num passado distante, era possível comprar 12 laranjas com R$ 1,00) Eu perguntei: Por que só R$ 1,00? Por que você não coloca R$ 100,00 e ganha muito mais dinheiro? Foi então que ele me explicou: Por que as pessoas não vão querer pagar esse preço por apenas 12 laranjas. Elas vão ver que outras barracas estão vendendo mais barato, então vão escolher comprar em outra barraca ou simplesmente não terão todo esse dinheiro (na época isso era quase um salário mínimo).
Me lembro também que várias vezes, meu pai me pedia que eu fosse dar uma volta pela feira e dar uma olhada nos preços das mercadorias de outras barracas concorrentes. Frequentemente ele era "forçado" a mudar o preço de suas mercadorias para se adequar ao "preço de mercado", por isso as plaquinhas de madeira e o giz: Os preços precisavam flutuar rapidamente dependendo das circunstâncias.
Várias vezes também meu pai tinha que vender as mercadorias a um preço menor do que ele havia pago, nesses casos, ele tinha prejuízo. Ele achou que as pessoas iriam comprar uma certa quantidade de maçãs, quando a procura era menor do que o esperado, ele tinha que arcar com as decisões erradas que ele tomava. E eu questionava: Mas você terá um prejuízo! - E ele me explicava: Se eu insistir num preço mais alto, as pessoas vão comprar ainda menos, as frutas vão estragar e eu terei um prejuízo ainda maior. Se não há procura o suficiente, o preço tem que diminuir, não há outro jeito.
Quando ele acertava, tinha lucro, quando errava, tinha prejuízo. Acho que era um bom estímulo para que ele fizesse o maior esforço possível para acertar.

Talvez por conviver com isso desde criança, o sistema de oferta e demanda e a forma como os preços se formam, pra mim, sempre foi a coisa mais óbvia do mundo. Quando se fala em livre mercado, muita gente lembra do mercado de ações e daqueles caras engravatados berrando feito loucos numa Bolsa de Valores, já eu, quando ouço falar em livre mercado, me lembro da barraca de feira do meu pai e dos feirantes berrando feito loucos: "Chega pra cá freguesia". 

Nunca tive dificuldades em entender que os preços carregam duas informações:
1. O que as pessoas querem consumir.
2. O grau de abundância ou escassez de um determinado bem.

O mercado não te obriga a nada, você pode fazer o que quiser, mas ele também não te deixa às cegas, ele informa o que as pessoas querem e mais: Ele te dá uma recompensa de acordo com o quanto você é capaz de satisfazer a vontade das outras pessoas. Aquilo que as pessoas mais querem e que mais está em falta, tem um preço mais alto, por isso, quanto mais você tenta atender àquelas demandas não satisfeitas, maiores as chances de ser melhor recompensado. Se recuse a atender às demandas da sociedade e você será pouco recompensado.

Muitas vezes porém, precisamos de gênios para nos dizer o óbvio. O economista austríaco Friedrich A. Hayek ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1974 por dizer esta simples verdade: Os preços carregam informações. Um volume inimaginavelmente grande de informações dispersas, que mudam a todo momento e que governo nenhum é capaz de reunir.


Friedrich A. Hayek

Se os preços carregam informações sobre o que as pessoas querem consumir, quando o governo interfere na economia, ou quando ele tenta controlar o mercado e os preços, indiretamente, ele está DITANDO às pessoas o que elas devem consumir. Por isso, o planejamento central de uma economia pelo estado é sempre uma forma de tirania e de autoritarismo, pois indiretamente, ele nos nega estas duas liberdades econômicas das quais falamos.
No capitalismo, as pessoas não podem fazer sempre o que querem, pois há forças impessoais ordenando o sistema, temos liberdade até para ignorar estas forças ou desafiá-las, mas temos que arcar com as consequências depois, a diferença é que o capitalismo é uma ORDEM ESPONTÂNEA e IMPESSOAL, que tenta harmonizar a vontade de todo mundo ao mesmo tempo, enquanto que o planejamento central da economia pelo governo é uma ORDEM PLANEJADA e ARBITRÁRIA e que portanto, é sempre autoritária.

E pior: Ir contra as forças de mercado não apenas vai contra a nossa liberdade, mas é uma atitude sempre fadada ao fracasso. Lembra que os preços também carregam informações sobre o grau de escassez ou abundância de um certo bem? Pois então, se o governo interfere na economia e nos preços, não há como saber quais bens são mais abundantes e quais são mais escassos. As pessoas não sabem o que produzir, em que focar os seus esforços produtivos, dessa forma, a economia se torna uma bagunça e os bens e recursos são mal alocados. 
É o que vemos acontecer num país socialista que fica aqui, bem pertinho de nós: A Venezuela. A Venezuela é um país socialista onde o governo controla a economia. E o que acontece lá? A economia é uma bagunça: Inflação disparada, falta de bens, falta de energia elétrica com apagões constantes, mercados com prateleiras vazias, falta papel higiênico e até comida, enquanto sobra outros recursos menos necessários. Como o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o governo consegue garantir que a gasolina seja extremamente barata.
O mesmo acontecia na antiga União Soviética: Enquanto eles eram pioneiros em mandar foguetes para o espaço, aqui na Terra faltava os bens mais básicos, de lâminas de barbear a absorvente feminino. No socialismo, a economia serve às ordens do governo e não aos desejos das pessoas.
Por isso o socialismo é sempre uma forma de tirania e o capitalismo, é a própria expressão da liberdade no campo econômico.

Leitura Recomendada:


Milton Friedman - Capitalismo e Liberdade

Friedrich A. Hayek - O uso do conhecimento na sociedade